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Itapeva, antigo ‘ramal da fome’, é só fartura

Cidade se transformou na maior produtora de grãos do Estado, com renda de R$ 246 milhões nas últimas safras

José Maria Tomazela

Itapeva

A cidade de Itapeva, a 285 quilômetros de São Paulo, já não é mais a mesma. Antes conhecida como “ramal da fome”, hoje é a maior produtora de grãos do Estado. As últimas safras de milho, soja, trigo e feijão produziram 7,1 milhões de sacas e renderam R$ 246,7 milhões. Essa montanha de dinheiro está transformando a vida de seus 87.639 habitantes.

Com os altos preços dos grãos, até os 2,5 mil pequenos agricultores conseguiram pagar as contas e ainda sobrou dinheiro. O ex-bóia-fria Odair Lopes de Oliveira é um deles. Vendeu a saca de milho por R$ 25 e foi fazer compras na cidade. Ele caminha pela rua carregando uma bicicleta na embalagem, seguido pelos dois filhos. “A bicicleta é minha, mas o som é para a casa.”

Moradores da periferia também beneficiados pelo dinheiro da safra, como o funileiro Alberto Lisboa, entopem o Calçadão Dr. Pinheiro, onde as lojas são mais numerosas. “Tem dia que isso aqui parece a 25 de Março”, exagera a vendedora Lisete de Almeida.

Inezeli Rodrigues Macedo, esposa de um trabalhador rural autônomo, realiza o sonho de ter uma máquina fotográfica digital. Numa loja das Casas Bahia, escolhe, com a filha Alessandra, um modelo de alta resolução. “Quero uma que precise só apertar o botão”.

O gerente da loja, João Batista Navarrete, conta que, desde a abertura, em 2003, o movimento cresce em média 15% ao ano. Nos meses de colheita, quando a safra é boa, o movimento dobra. “A pessoa entra toda humilde, de chapéu e botina, e vai direto para a seção de TVs de tela plana”.

O boom da agricultura já se reflete nas contas públicas. Segundo o prefeito Luiz Cavani (PSDB), a inadimplência de impostos, que há três anos chegava a 40%, caiu para menos de 15%. A prefeitura, antes atolada em dívidas, agora tem dinheiro e está investindo R$ 10 milhões em saneamento e pavimentação. “Quando a agricultura vai bem, tudo aqui anda”, diz.

O cadastro municipal, que passava semanas sem inscrever novas empresas, agora chega a abrir dez em um único dia. “Estamos recebendo uma grande concessionária de caminhões e uma distribuidora de máquinas agrícolas”, conta o prefeito. Uma grife e uma franquia americana chegaram à cidade, além de dois novos hotéis.

O dinamismo da economia também traz problemas, lembra o prefeito. “Enfrentamos problemas de trânsito, como os congestionamentos nos horários de pico e falta de estacionamento na região central”.

O que mais se fala nas ruas é da mudança que a nova condição econômica provocou nessa cidade de 1,8 mil quilômetros quadrados. “Não é mais preciso viajar para fazer compras e as pessoas se vestem melhor”, diz a empresária Lúcia Milani.

Para o presidente da Associação Paulista de Criadores de Pardo-Suíço, José Fernandez Lopez Neto, também dirigente rural, a região logo será como o sul do Texas. “As terras que produzem alimentos terão o mesmo valor que as que produzem petróleo”, diz. “Aqui se tem tecnologia para tirar quase três safras por ano. Os estrangeiros chegam e ficam admirados”.

As terras de Itapeva, que antes valiam de 3 a 5 vezes menos que as da região de Ribeirão Preto, hoje valem quase a mesma coisa, segundo Lopez Neto.

O boom da agricultura também produziu mudanças no perfil da sociedade local, segundo o secretário de Cultura e Turismo, David Panis Kaseker. As duas universidades, uma delas estadual, passaram a oferecer cursos de veterinária, agronomia e engenharia florestal.

A cidade jê entrou até no roteiro de eventos internacionais, segundo o secretário. “Em menos de um mês, recebemos um grupo europeu de música clássica e três orquestras, entre elas a Filarmônica Nacional, sempre com grande público”.

fonte: Jornal O Estado de São Paulo.



 


 
 
 
 

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